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Mulher que cobrou Bolsonaro sobre mortes é militante do MBL e premeditou o questionamento

1 ano ago
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O presidente Jair Bolsonaro mandou uma mulher se retirar da frente do Palácio da Alvorada, na manhã desta quarta-feira, 10, após ela o questionar sobre as mais de 38 mil mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil. “Cobre do seu governador. Sai daqui”, disse ele à mulher, que é integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) e se misturou entre os apoiadores do presidente. Após ouvir a cobrança, Bolsonaro voltou a minimizar a pandemia e afirmou que “as mortes estão havendo no mundo todo, não apenas pela covid”.

“Nós temos hoje 38 mil mortos por causa do covid. E, assim, não são 38 mil estatísticas, são 38 mil famílias que estão morrendo nesse momento, que estão chorando. O senhor, como chefe da Nação, eu votei no senhor, fiz campanha para o senhor, acho até que o senhor me conhece. E eu sinto que o senhor traiu a nossa população”, disse a mulher, que levou um cartaz com o número de mortos e se identificou como Cristiane Bernart.

O Movimento Brasil Livre (MBL) ganhou projeção nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e chegou a apoiar a eleição de Bolsonaro. Depois, no entanto, rompeu com o presidente. Formada em Letras, Bernart é assessora no gabinete do vereador de São Paulo Fernando Holiday (Patriota), um dos líderes do MBL. Em post no Twitter, Holiday disse que dispensou ela do trabalho hoje para que ela participasse de manifestação e descontará o salário.

Ao cobrar Bolsonaro no Alvorada, Bernart afirmou que a população está morrendo, mas Bolsonaro ficou em silêncio e se afastou dela, dando a palavra para outras pessoas. Apoiadores tentaram abafar a fala dela. Diante da insistência, o presidente disse à manifestante parar de falar ou, então, sair do local. “Se você quiser falar, sai daqui, já foi ouvido. Cobre do seu governador. Sai daqui”, declarou o presidente mais uma vez. A mulher, no entanto, permaneceu no local, uma área cercada em que os apoiadores costumam aguardar a saída do presidente da residência oficial.

A conversa do presidente no Alvorada foi transmitida ao vivo pelo canal de YouTube “Cafézinho com Pimenta”, do militar reformado Winston Lima, mas o vídeo foi retirado do ar pouco depois. Lima é um dos alvos do inquérito das fake news, no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro também não transmitiu a interação com apoiadores em “live” no Facebook, como costuma fazer diariamente.

Após mandar Bernart deixar o local, o presidente voltou a minimizar as mortes por coronavírus ao dizer que os óbitos acontecem no mundo todo, e não apenas pela covid-19. “Aquela figura falando abobrinha ali. Vem usar uma coisa séria, as mortes, para fazer demagogia aqui, todos nós respeitamos e temos compaixão pelo pessoal que perdeu um familiar, não importa a circunstância”, disse.

“Mortes estão havendo no mundo todo, não é apenas a covid. Agora, querer culpar a mim… Tem muita gente morrendo de fome, depressão, suicídio, uma política feita apenas de um lado”, disse Bolsonaro.

Esta não é a primeira vez que o presidente demonstra incômodo ao ser cobrado pelas mortes causadas pela doença no País. No fim de abril, ao ser questionado por um jornalista sobre o fato de o Brasil ter superado a China em número de vítimas, Bolsonaro respondeu com um “e daí?”. Antes disso, já havia dito não ser “coveiro” para comentar os óbitos.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tem minimizado os efeitos da pandemia e, por diversas vezes, chegou a tratá-la como “gripezinha”. Ele também é crítico a medidas de isolamento social, considerada por organismos de saúde a maneira mais eficaz de se evitar a propagação do vírus.

Nos últimos dias, o presidente também tem adotado a narrativa de responsabilizar governadores e prefeitos pela crise, distorcendo uma decisão do Supremo Tribunal Federal para atribuir a eles a função de conduzir as ações de enfrentamento. Diferentemente do que diz o presidente, a decisão da Corte assegurou aos Estados e municípios autonomia para tomar medidas que tenham como objetivo tentar conter a propagação da doença, mas não exime a União de realizar ações e de buscar acordos com os gestores locais.

Quem é Cristiane Bernart

Expulsa da frente do Palácio da Alvorada após cobrar o presidente Jair Bolsonaro sobre as mortes pela covid-19, Cristiane Bernart é militante do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo que faz oposição ao governo. Em conversa com o Broadcast Político/Estadão, ela disse que a ação foi proposital e que estão previstas novas iniciativas como as de hoje para fazer pressão pelo impeachment de Bolsonaro. O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), um dos líderes do movimento, confirmou tratar-se de um ato político.

A militante e youtuber Cristiane Bernart, do Movimento Brasil Livre (MBL) © Reprodução/Facebook A militante e youtuber Cristiane Bernart, do Movimento Brasil Livre (MBL)

“A ideia do MBL é continuar questionando o presidente e fazer outras ações, como o panelaço que será feito hoje, às 19h”, disse Bernart. “Eu quis puxar um ato para que as pessoas não tenham medo de cobrar o presidente por ser o presidente. Ele é nosso funcionário e tem obrigação de dar explicações”, justificou.

Formada em Letras, Bernart trabalha como assessora do gabinete do vereador em São Paulo Fernando Holiday (Patriota), também integrante do movimento, mas disse que pediu licença não remunerada para ir até Brasília e que pagou pelos custos da viagem. Ela também diz ser atriz.

No Twitter, Cristiane compartilhou foto do documento com o pedido de desconto do pagamento referente ao dia de hoje, com a justificativa de que iria se ausentar para fazer “manifestação pública de caráter político”.

Segundo ela, “todo cidadão deveria ter o direito de questionar o presidente”. “Até porque aquele cercadinho (do Alvorada) não é para ser só de apoiadores. Eu quero que as pessoas enxerguem em mim, na minha ação, um exemplo de coragem para também irem. Eu fui como cidadã e iria mais 500 vezes se fosse o caso”, acrescentou.

“Já faz três meses que eu presto uma assessoria para o Fernando Holiday, porque eu fiz Letras, então eu faço parte da correção dos artigos, das postagens, dou apoio para ele na questão dos textos. É isso”, disse ao Broadcast/Estadão sobre o trabalho que presta ao vereador.

Segundo a assessora, no entanto, “é um trabalho completamente paralelo”. “Muita gente acha que o MBL me comprou, mas se fosse para eu me vender eu teria me vendido para a ala bolsonarista que também me ofereceu cargo. Não é uma questão de vender, é uma coisa que juntou um trabalho que eu já fazia com a minha admiração pelo MBL”, afirmou.

Em frente ao Alvorada, pela manhã, Bernart disse a Bolsonaro que 38 mil famílias choram pelas mortes e que o presidente traiu a população. Apoiadores de Bolsonaro tentaram abafar a fala dela e a mandaram calar a boca. Diante da insistência, o presidente disse para Bernart parar de falar ou, então, sair do local. “Se você quiser falar, sai daqui, já foi ouvido. Cobre do seu governador. Sai daqui”.

Ao Broadcast, ela contou que foi “bastante hostilizada” pelos apoiadores do presidente e, por isso, pediu para sair antes que o presidente terminasse de falar. Sobre a postura de Bolsonaro, Bernart afirmou que imaginou que poderia levar uma “patada” ou ser “ignorada”. “Apesar disso, esperava que ele tivesse uma postura de homem e pelo menos me respondido”, declarou.

Ato foi combinado com MBL

Kataguiri confirmou que a ação da integrante do MBL foi combinado previamente. “Foi um ato do MBL. A Cris Bernart faz parte do movimento. A ideia foi cobrar o presidente justamente nesse momento em que temos o ministro da Saúde ou secretário (Eduardo Pazuello), o que quer que seja, dizendo que a pandemia precisa ser controlada de uma maneira diferente no Norte e no Nordeste porque as regiões fazem parte do Hemisfério Norte e têm um inverno diferente”, disse Kataguiri ao Broadcast Político. A declaração foi dada por Pazuello em reunião ministerial nesta terça, 9.

O parlamentar comparou o tratamento dado por Bolsonaro à Bernart com a resposta dada pelo presidente à uma apoiadora que, na segunda-feira, 8, disse ter a cura para o coronavírus, mastigar alho cru, e pediu para ser infectada para comprovar sua ideia também na entrada do Palácio da Alvorada.

“É irônico. Na segunda, ele escutou e levou a sério a moça que dizia que a grande solução do coronavírus era mastigar alho cru”, disse. “O presidente disse que vai agendar uma reunião para ela no Ministério da Saúde. Espera aí, o presidente leva a sério isso e diz que vai marcar uma audiência?”, questionou. / COLABORARAM CAMILA TURTELLI E GUSTAVO PORTO

Fonte: Estadão

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